quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

CHÁ COM PÉROLAS

Já faz algum tempo que não olho para minha cristaleira, tão antiga e tão cheia de vida. 
Talvez movida pelos apelos afetivos desta época de tantas recordações estou especialmente voltada para dentro de mim mesma. 
Hoje, dia 30 de dezembro, quase finalizando este ano de tantas emoções, chegou a hora de revisitar todas as promessas que fiz para mim mesma no final do ano passado. Na verdade não foram muitas, mas foram suficientes para entender que minhas promessas são dívidas, as quais só me lembro quando não há mais tempo para nada. 
Talvez por esta razão as promessas são praticamente as mesmas todos os anos. 
E corro pular ondinhas imaginárias. Preparo a ceia com cuidado, a mesa enfeitada e linda, o traje branco escolhido com primor. 
Faço votos de paz, dinheiro, amor, saúde e trabalho para todos que amo.
Mas... o que foi feito deste ano de 2015? Não foram os mesmos votos que fiz no final de 2014?
Desta vez, além dos votos tradicionais (também essenciais) quero encerrar este ano com simplicidade e transparência. 
Escolhi uma xícara de vidro, para poder ver as cores brilhantes e límpidas do meu cha de camomila, cuidadosamente servido neste fim de 2015. 
Quero a calma necessária para a experiência única de viver com simplicidade. Quero a sabedoria necessária para reconhecer dentro de mim tudo aquilo que me é indispensável conservar. 
Também quero rever meus conceitos e abrir mão de tudo aquilo que não me faz falta, ou pior, que me faz mal. 
Só não posso abrir mão do aprendizado de ter vivido o que vivi em 2015. O aprendizado de ter vivido tudo o que vivi até agora. O aprendizado de tudo o que ainda vou viver até o dia em que minha antiga cristaleira finalmente fechar suas portas marcadas pelo tempo e os espelhos dentro dela pararem de refletir minha essência. 
Pensando bem, este é o único voto que faço para o novo ano que está por vir... sabedoria!
Vou pegar emprestada a sabedoria generosa de Rubem Alves para tentar expressar meus votos de Ano Novo. Em seu livro “Ostra feliz não faz pérola” este grande conhecedor da alma das ostras divide conosco o segredo de uma bela pérola. 
Se o ano que passou não foi fácil e trouxe pedras no lugar de pérolas... não me queixo. Abro a cristaleira e vejo minha imagem lá refletida, naquele espelho embaçado do tempo. Escolho a xícara, preparo o cha de camomila e... voilà...
Abro cuidadosamente minha ostra para buscar dentro dela a bela pérola que vem sendo preparada ao longo de minha experiência de viver.
Afinal, como diz o tradutor das ostras...

Ostra feliz não faz pérola. A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo a ostra diz para si mesmo:
“Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…” Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. 

Estes são meus votos para 2016... que minha coceira curiosa possa criar belas pérolas, lisas, brilhantes, cheias de minha experiência de viver.

Aceita um cha de camomila?


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

UMA XÍCARA VERMELHA COM BOLINHAS DOURADAS...

Hoje é um dia especial, talvez não tão feliz quanto gostaria, mas com certeza especial. Um dia de estar com a família, com amigos, de partilhar solidariedade e amor. Um dia de comemorar a vida, se preparar para viver o que ainda não foi vivido e reviver tradições. Quando crianças vivíamos esse dia com muita ansiedade, casa da vó, tios, primos, pai e mãe, irmãos, uma árvore de Natal cheia de luzes piscando... Eu morria de vontade de tocar nas bolas coloridas – proibidas pois eram de vidro e podiam se quebrar. E eram caras demais para serem substituídas no ano seguinte. Os enfeites de Natal acompanhavam nosso crescimento. Todo ano me divertia revendo as bolas que, com o tempo, ficaram menos brilhantes. Onde foram parar? Algumas se quebraram, com certeza. Outras foram parar no lixo – que pena! Mas tem algumas que foram guardadas pois guardavam em si muitas histórias.
Hoje é um dia especial, não tão feliz quanto gostaria, mas com certeza especial. Um dia de lembranças que me fazem reportar para um tempo em que as bolinhas douradas e luzes piscando faziam a alegria da criançada. Um tempo em que a família reunia mais de 30 pessoas em volta de uma mesa. E fico pensando... onde estão? Faltam algumas pessoas que deveriam ser eternas em nossas vidas. O tempo se encarregou de guardá-las no baú de lembranças onde devem também estar as bolinhas coloridas já não tão brilhantes de nossa infância.
Então, se hoje é um dia especial, por que não abrir esse baú? Corremos o risco de algumas lágrimas, certo? Emoção é uma das marcas deste dia, deixa rolar. E as bolinhas menos brilhantes vão se encher de reflexos únicos, reflexos das lembranças da infância nos olhos que olham para dentro. E assim vamos reencontrar todas as pessoas que faltam na mesa, aquelas que deveriam ser eternas. E descobrimos que são eternas em nossas lembranças e em nossos corações. São eternas como as bolinhas douradas brilhantes de emoção.
Hoje é um dia especial e será tão feliz quanto eu fui naquela época, e tão feliz quanto eu sou agora. Vou buscar na cristaleira da casa da minha avó (que hoje só existe em minhas lembranças) uma linda xícara vermelha e encher com as bolinhas douradas que vão voltar a ser brilhantes de emoção.
Hoje é um dia especial, um dia feliz e cheio de paz!

Feliz Natal!
Cladismari Zambon

quinta-feira, 21 de março de 2013

UM SEGUNDO APENAS...


Queria um segundo com minhas porcelanas hoje...
Um segundo de reconhecimento, um segundo de aconchego na cristaleira de minhas memórias. Tem dias que um segundo faz tanta diferença... quanta eternidade no espaço de um segundo. Um suspiro profundo de entrega, de paz, de fé... Um suspiro, um segundo, apenas um...
Aquele segundo precioso que talvez tenha sido desperdiçado tempos atrás... que falta ele faz hoje. A soma de tantos segundos desperdiçados... eu sei que eles não voltam mais...
Hoje eu quero de volta esse segundo que eu sei que não está perdido. Ele está no fundo da minha cristaleira, guardado em alguma das minhas xícaras de porcelana. Talvez a mais alva, a mais pura, a mais imaculada... este segundo é precioso e traduz um único sentimento – AMOR.
O segundo que dura um olhar, que se torna eterno ... o segundo que gera uma vida neste encontro de amor... o segundo que gerou a minha vida. O segundo que gerou todas as vidas. O segundo que pertence a quem ama, a quem deseja, a quem gera a vida, a quem dá a vida... e ao único que toma de volta num segundo que se torna eterno.
E onde se guardam todos os segundos? Não é num relógio que parou no tempo. Com certeza não é... este apenas nos dá a impressão de eternidade. Os segundos são guardados nas memórias impressas em minha alma de porcelana. Memórias de cada segundo vivido com quem não ficará para sempre ao meu lado. Memórias impressas em minha alma de porcelana.
Não sei o quanto dele eu carrego em mim, com certeza muito mais do que posso imaginar. Mas se fosse possível resgatar todos os segundos (desperdiçados ou não) com certeza me surpreenderia. E se hoje eu olho para dentro da minha cristaleira em busca da porcelana mais pura, é porque não sei o que fazer com um sentimento único, que não cabe em nenhuma experiência já conhecida ou vivida por mim. É uma marca nova em minha alma de porcelana, uma marca que eu sempre soube que um dia teria que suportar, uma marca dolorosa, uma marca única...
Quero um  segundo apenas... um segundo que dure para sempre...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O TEMPO E O PÓ


Hora de tirar o pó da cristaleira... Faz tempo que não olho para ela, envolvida em tantas outras atividades e preocupações... O dia a dia se encarrega de encher a cristaleira de pó, fragmentos que vêm no ar e nem sempre nos damos conta que estão sendo depositados lá. Simplesmente parece que brotam entre minhas porcelanas. Eu não permiti que viessem, até tentei manter as portas da cristaleira fechadas mas... lá estão eles. Minúsculos fragmentos de coisa nenhuma que, juntos, formam uma cobertura incômoda sobre tudo que guardei com tanto zelo. Isso me faz pensar em mil coisas... Será que existe uma forma de vedar as frestas para não permitir entrar o pó? Será que existe uma forma de isolar o meu interior de tudo aquilo que insiste em me invadir e se instalar? Esse pensamento soa assustador... é de um isolamento profundo que desemboca numa solidão consentida e um narcisismo dilacerante. Pensar em congelar o tempo em lembranças intocadas, tornar sagrado o que é material e profano, santificar minhas experiências humanas... Confesso que já pensei nisso e talvez alguns de vocês também já tenham desejado se tornar intocáveis. Felizmente a poeira fininha do dia a dia me conduz de volta para a realidade. As porcelanas estão guardadas sim, mas a vida continua e a poeirinha que se deposita ali mostra que existe movimento até onde o vento não alcança. É como pegar um velho álbum de fotografias e percebê-las amareladas. É como se observar em um velho espelho turvo (igual o da minha cristaleira) e perceber que o tempo não é seu inimigo... ele apenas não permite que você congele de forma fria e inerte... existe vida no tempo... existe vida no passar do tempo... existe vida em cada fragmento de poeirinha depositado em minha alma de porcelana.
E assim, com uma flanela macia e acolhedora que a experiência me permitiu escolher, vou desvelando cada peça guardada, removendo a fina cobertura de pó de vida que ali se depositou. É apenas pó, posso sacudir na janela e o vento (sempre o vento) se encarregará de espalhar em outras porcelanas que talvez nem se apercebam de sua existência. Já cumpriu seu papel na minha cristaleira... é hora de levantar voo... Afinal, um dia voltarei a ser parte deste pó de vida...
Tu és pó e ao pó tornarás (Gn 3:18)
Cladismari Zambon

 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CHÁ DE BOLDO OU ERVA DOCE?


O que te tira do sério?
Perdi a conta de quantas vezes fiz essa pergunta no consultório, na universidade, em entrevistas de seleção. É uma perguntinha simples, que sempre guardei na manga, para ser colocada na mesa na hora certa, como uma carta coringa num jogo. Pois bem, chegou a minha vez de responder a essa pergunta. 
Eu sempre disse para mim mesma (e para todos que em algum momento me devolveram a pergunta) que dificilmente algo me tira do sério, que eu até fico meio triste, meio brava e pensativa, mas logo me recomponho e me fortaleço. Pois é, mas algumas coisas me tiram do sério sim, e por mais que eu tente minimizar o efeito delas, elas existem e me provocam sentimentos diversos. Fazem emergir uma parte passional que eu não gostaria de deixar vir à tona. Mas... eu sou de carne, osso e SENTIMENTO! Por vezes mais carne e osso (realista e racional), outras vezes quase só sentimento. E quando toca nessa parte...
Mas vamos parar de rodeios sentimentais e tentar falar de forma organizada (e racional) sobre este sentimento de perda de controle. O que me tira do sério?
Se é para falar de sentimentos que quase nunca permito emergir, vou servir um chá com uma xícara que quase nunca tiro da cristaleira. É um joguinho de seis xícaras muito antigo, de uma porcelana irregular, sem o acabamento impecável das xícaras que costumo servir chá aqui para vocês. Mas é uma porcelana antiga, cheia de histórias, aquelas histórias que costumamos guardar sem muito pensar pois são difíceis de assimilar. E tudo que é guardado... volta em algum momento. O que é passado deveria ficar no passado, certo? Mas ele é teimoso, se você simplesmente jogar para o fundo da cristaleira, ele teima em aparecer em primeiro lugar aos olhos, insolente, irritante, até que você tire da cristaleira, limpe o pó, dê um novo sentido e um novo lugar.
Acho que está ficando claro o que me tira do sério... coisas mal resolvidas!
Vamos ao chá? A xícara está posta sobre uma mesa bonita, com uma toalha feita de retalhos coloridos. Retalhos de tecidos que formam um belo desenho. Gosto muito desta toalha, feita pelas mãos caprichosas de uma artesã mineira que não conheço, mas passei a admirar. Fiquei em dúvida com relação ao chá, quem sabe você me ajuda escolher... chá de boldo, forte e digestivo, de sabor amargo... um remédio poderoso das nossas avós. Ou chá de erva doce, de aroma delicioso, de sabor adocicado, que acalma os bebês e suas mães em noites mal dormidas. Acho que o momento é de chá de boldo seguido de chá de erva doce... primeiro digerir e depois acalmar. E aquilo que estava mal resolvido... enfim ganha espaço novo na cristaleira de minhas emoções. 
Quantas vezes você escondeu dos seus olhos o que não estava pronto para enfrentar? Conseguiu? Por quanto tempo? Tome chá de boldo... o remédio milagroso para digerir qualquer coisa. E por favor... não coloque sobre outra pessoa a responsabilidade da sua vida, ela já tem a própria cristaleira para cuidar. 
Eu posso dizer hoje que poucas coisas mal resolvidas me incomodam em minha cristaleira. Mas... tentar colocar uma xícara que nunca me pertenceu para dentro de minha experiência... isso fere minha alma de porcelana. Posso servir o chá e refletir com você... mas suas respostas você vai ter que encontrar...  As marcas de vida em minha alma de porcelana são só minhas.
Aproveite o momento e abra sua cristaleira, tire o pó de sua alma de porcelana, avalie o que faz sentido e o que não deve mais fazer parte de sua vida, guarde o que realmente tem valor e... principalmente... assuma a responsabilidade sobre as suas escolhas. Chá de boldo é um santo remédio!
Só não tente colocar nada que você não consegue resolver na cristaleira dos outros... ISSO ME TIRA DO SÉRIO!
Cladismari Zambon

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

RECEITA DE PÃO

Hoje, quase no fim do meu dia, uma pessoa me disse algo que soa simples, mas muito difícil de viver. Uma pessoa que generosamente mandou um email comentando um dos meus textos: “Viver um dia de cada vez...Mas, não é este o segredo da Vida?“ 
Simples assim...  Talvez pela simplicidade seja quase impossível. Afinal, o que é simples não nos chama tanto atenção. Temos especial interesse pelas coisas complexas, complicadas e rebuscadas. Como diria Joãosinho Trinta... “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo”. Quanta sabedoria nestas palavras...
Pois bem... eu que gosto de complicar as coisas (mania de pensar demais, dá nisso) empresto essa sabedoria da simplicidade carnavalesca e me arrisco a dizer: o pobre “de espírito” tem que enfeitar coisas, roupas e palavras... precisa do luxo. Tudo aquilo que de alguma forma sirva para deixar a pobreza interior menos evidente e menos visível. Quem não tem o que dizer, se cobre de tudo o que é bonito aos olhos e aos ouvidos, mesmo que sejam palavras totalmente desprovidas de sentido ou de verdade. E o pobre “de espírito” adora isso. Já quem gosta da simplicidade é justamente aquele que não procura o superficial, o esteticamente produzido para encher os olhos e os ouvidos... Quem gosta de simplicidade aprecia o que faz sentido. O que faz bem a alma é justamente o que  desassossega, o que faz pensar e, portanto, faz sair do lugar. O que faz pensar é definitivamente um luxo! Que paradoxo interessante entre riqueza e pobreza. Preciso da simplicidade para encontrar a riqueza. E preciso da riqueza para ocultar minha pobreza.  E onde fica a felicidade?
Freud é bem reticente quando fala de felicidade. Ele ousou romper com a idéia judaico-cristã ao dizer que o homem padece de uma infelicidade eterna pois, para viver de acordo com o que é ditado pela cultura, deve abrir mão de satisfazer seus anseios.  Pagamos um preço muito caro pela “civilização”. Minha avó dizia isso de forma mais simples... “o homem é um eterno insatisfeito”. Portanto, não ouse pensar pois isso tira o sossego e te joga para dentro do nada. O preço do pensar é a angústia. Mas eu penso mesmo assim, sou impertinente e teimosa. Quase uma pedrinha no sapato de quem gosta de amortecer a consciência. Penso no quanto é difícil suportar a angústia do outro. Vamos enfeitar de plumas e paetês farmacológicos a angústia pois assim não nos deparamos com a dura realidade de nossa pobreza interior.
Mas quem está livre disso? A resposta é uma só: ninguém! Porque viver com simplicidade é algo impossível pela sensação de falta inerente à experiência de ser gente no meio de outras gentes. E digo isso justo no momento em que todos estamos cheios de esperança, planos e projetos. Precisamos disso e realmente somos isso. Projetos renovados nos dão a sensação de mudança. Eis aí mais um paradoxo... mudar dá medo. 
Vou contar uma historinha... faz tempo que não conto minhas histórias. É a história de um pão caseiro, simples, cheiroso e delicioso. Um pão amassado com as mãos de uma pessoa que faz disso um verdadeiro ritual. Um pão que recebi das mãos de uma senhora de 75 anos a quem vou chamar de Dona Joana. Ela poderia se chamar Maria, Ana, Chica, Luiza, não importa o nome. Importa o pão e as mãos simples e firmes que generosamente o amassaram. Pois bem... foi num final de tarde num daqueles dias difíceis que deixam marcas na alma de porcelana. Um daqueles dias em que tudo parece cinza, que nem brilhos e paetês numa maquiagem de última hora são capazes de disfarçar o cansaço e o desânimo. Tenho certeza que todos sabem do que estou falando pois esses dias não escolhem apenas a minha cristaleira para acontecerem. Um dia realmente difícil. E chega Dona Joana, de mansinho, sorriso nos lábios e olhar maternal. Trazia um pão enrolado num pano-de-prato bordado em ponto cruz. Era sexta-feira, próximo do dia das mães, e ela bordou o pano com os dizeres: “Feliz dia das Mães”. Me entregou o pão enrolado no pano-de-prato, sorrindo, e disse... “Fiz para você que muitas vezes me fez lembrar da minha mãe”. A simplicidade é realmente um luxo, posso garantir! Quanta generosidade e sabedoria neste simples gesto? Por que é tão difícil receber a angústia do outro se ela é igualzinha a minha? A resposta Dona Joana tinha naquele pão enrolado num pano-de-prato. Com 75 anos era capaz de receber a mim, humildemente, como alguém que poderia pegá-la no colo, como sua mãe. E devolver isso com toda sabedoria e experiência. Com conhecimento e simplicidade. Alguém capaz de dizer que amassou o pão com as próprias mãos, bordou o pano com a sensibilidade e sorriu com a simplicidade de quem já passou por todas as dores do mundo. Naquele dia aprendi a valorizar um simples gesto como o luxo verdadeiro do conhecimento. Sim... quem gosta de luxo é intelectual, é alguém que realmente sabe e vive intensamente, que tem conhecimento suficiente para abrir mão do lixo que mascara os sentimentos que efetivamente transformam sofrimento em vida. E como diria meu amigo no email, alguém que aprendeu a  “Viver um dia de cada vez” pois  “este é o segredo da Vida“!
Sim, viver um dia de cada vez, e aprender a amassar o pão, a bordar ponto cruz, a sorrir com os olhos e a receber com o coração. Este é o segredo da vida. Aprender a viver um dia de cada vez, com o luxo da simplicidade, é hoje meu único projeto de vida.
Alguém tem uma receita de pão caseiro para acompanhar minha próxima mesa de chá?
Cladismari Zambon

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ESPAÇO VAZIO...

Qual a dimensão das coisas na minha vida? Quando digo coisas me refiro a objetos mesmo, aqueles que se deixam tocar pelas minhas mãos curiosas. Casa, carro, roupas, sapatos (adoro sapatos), um brinco novo... coisas. Vivo sem elas? Com certeza sim, mas não quero! Todos temos objetos dos quais não abrimos mão. Não nascemos com eles, mas colecionamos objetos ao longo da vida. É só abrir o maleiro dos guarda-roupas para ver a quantidade de coisas que guardamos para nunca mais usar. A possível necessidade futura justifica minha coleção, é claro! Mas se ficou lá por dois, três, dez anos... sem que eu precisasse ou nem sequer lembrasse... por que guardei? Por uma única razão... medo. Cheguei à conclusão de que eu tenho medo de um espaço vazio no guarda-roupa tanto quanto tenho medo de um espaço vazio dentro de mim... É possível suportar os espaços vazios sem ter que preenchê-los imediatamente? E quando as coisas se vão de minha vida contra a minha vontade? Que sensação de perder um pedaço de mim mesma, que tentação de substituir imediatamente... É possível substituir? É possível repovoar o espaço vazio?
É aí que me pego refletindo... E quando coisas e pessoas se confundem? Qual a dimensão das coisas-pessoas na minha vida? Nossa, que pensamento doloroso... coisas-pessoas ou dito de outra forma... pessoas que foram coisificadas em minha vida para preencher meus espaços vazios que tanto me amedrontam... Parece familiar? Faz muito sentido para mim, cuja solidão é suportada pela minha própria ausência de mim mesma. E deve ser assim. É a solidão dos meus espaços vazios que só podem ser preenchidos por mim mesma. Se um dia eu tentar (e com certeza fiz isso muitas vezes) preencher esse espaço com alguém, esta pessoa se tornará um objeto (pessoa-coisa) em minha vida. Nunca poderá me faltar, nunca poderá se afastar, nunca poderá falhar. E quantas vezes já fiz isto... 

Alguns espaços vazios devem ficar assim mesmo... vazios... Disponíveis para minha própria movimentação interna. Disponíveis para experimentar coisas novas, disponíveis para o meu crescimento. Então vem uma palavra muito moderna nos dias de hoje... desapego. Essa palavra me dá arrepios! Em nome do tal desapego as pessoas não se apegam mais, não se vinculam, não se envolvem. Para desapegar é necessário primeiro apegar-se, envolver-se, permitir-se tocar pelo outro que aos poucos ocupa um espaço que nunca foi vazio de todo pois sempre foi ocupado por mim mesma. Somente assim pode-se viver o outro enquanto pessoa, um ser subjetivo e completo que empresta em sua passagem algo de si para mim. Não por obrigação ou por força de preencher o espaço vazio de sua existência, mas por simples permanência e desejo.
Vou recorrer a uma analogia que já usei em outro texto, em outro tempo. Num tempo em que estava refletindo sobre o ser mulher na presença do outro. É um texto que fala da diferença entre a mariposa e a borboleta. Existem várias espécies de mariposas, noturnas, grandes, belas, que vivem nas sombras e aparentemente se alimentam de uma única fonte de luz. A mariposa escolhe uma fonte de luz que lhe confere motivo e razão de viver. E sua vida passa a ser aquela lâmpada acesa, fonte de sua energia, de onde tira (suga) o que necessita para viver. Voa em torno dela e, se a luz se apaga, pousa imóvel aguardando que se acenda novamente. Imagine ser uma lâmpada (pessoa-coisa) para essa mulher-mariposa (também conheço homens assim). Essa luz pode ser um companheiro, um filho, uma empresa, enfim... qualquer coisa que dê total sentido para a existência desta mariposa. Não pode haver falha, não pode se esgotar e deve se deixar “sugar” para que a mulher-mariposa possa continuar viva. É uma relação de dependência mútua, onde um 
não vive sem o outro, onde um é absorvido pelo outro, onde luz e mariposa passam a viver num ciclo de cobranças, chantagem e culpa. Não é uma relação de amor, é uma relação de dependência e medo de perder, onde nenhum dos dois cresce, e fatalmente com o tempo a luz perde a força e a mariposa morre. Resultado... frustração e vazio... 
E a borboleta? Essa é colorida, única. Ela adora a claridade, as flores, adora a vida. A borboleta encanta por onde passa, ela é alegre, ela fertiliza, ela é clara, ela empresta suas cores e sua alegria para o mundo. Uma borboleta tem várias fontes de alimento, varias flores, e com isso ela estabelece uma relação de troca por onde transita. Não se precisa temer uma borboleta. Mas se tentar aprisiona-la, ela morre. Assim é a borboleta. Para se tornar uma borboleta deve passar por transformações importantes – um processo de reclusão dentro de si mesma a que chamamos de metamorfose – até virar um indivíduo adulto. A mulher-borboleta (serve também para os homens) igualmente passa por transformações. Ela precisa amadurecer e encontrar dentro de si a beleza e a alegria de viver. E oferecer isso para as flores que a cercam – filhos, companheiro, amigos, colegas, etc. – distribuindo atenção e recebendo de cada um conforme o que cada um tem pra dar. Isso não sobrecarrega uma só fonte de luz, como no caso da mariposa. Essa relação é uma relação de troca onde o amor pode acontecer e se manter. Uma relação de complementariedade, sem culpas e sem cobrança. A mulher-borboleta é capaz de sorrir e brincar, mas também é capaz de trocar de flor ou até de jardim... A luz que se apaga não apaga seu colorido, apenas a faz avaliar e resgatar o verdadeiro valor que tem dentro de si mesma. Flor e borboleta são complementares, vivos, e cheios de cores. Flor e borboleta estabelecem uma relação de amor.

E aí volto meu pensamento para a pergunta inicial: Qual a dimensão das coisas na minha vida?
Em que momento sou mais mariposa vendo nas pessoas o que me falta para preencher os espaços vazios? Estes espaços se traduzem naquela voz infantil que sussurra no meu ouvido: “estou sozinha, estou triste, estou com medo”... 

Quantas pessoas-coisas transformei em lâmpadas permanentemente acesas para acalmar meus medos? E quantas vezes fui eu mesma lâmpada para outras mariposas? Tudo o que eu precisava era que a lâmpada se apagasse para me recolher para dentro de mim mesma, redimensionar meus espaços vazios, rever meus medos e... num milagre de renovação, conduzir a voz infantil que sussurrava em meu íntimo para a luz. Não a luz de mais uma lâmpada, mas a luz do conhecimento. A luz do crescimento. A luz que sempre esteve ali conferindo cores e brilhos em minhas asas. Não quero ser mariposa, e também não quero ser lâmpada. Quero ser borboleta e quero ser flor... Quero permitir o espaço de liberdade (não mais espaço vazio) por onde a verdadeira vida pode acontecer. Quero isso hoje, quero isso amanhã, quero isso sempre. Isso é desapegar-se de mim mesma, de minhas lâmpadas arcaicas e infantis, para ver no outro o que o outro pode finalmente ver em mim...
Cladismari Zambon